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Penitência

Diarística. Autoficção. Rompantes mais ou menos semânticos.

Penitência

Diarística. Autoficção. Rompantes mais ou menos semânticos.

Há corações pendendo da janela da frente

Há corações pendendo da janela da frente, cabides rosa desabitados, a janela entreaberta, o limiar do amor à descoberta e os treze graus desta manhã soturna vigiando-nos. Há corações pendentes à janela e se eu pudesse, ao menos, mostrar-vos como estremecem esses corações, mas a palavra perdeu-se e não sei agora regatá-la desse ponto sem retorno. O que eu dava para registar num poema vernacular essa aparição dos corações pendendo da janela da frente!

Terá que vos bastar essa descrição tosca: 

há corações pendendo da janela da frente

e neles um mundo que não se gasta

para contemplar

é preciso submetê-lo à raíz das coisas simples

e ser capaz de anunciar

que há corações pendentes à janela!

Se eu soubesse fotografar

e fazê-lo com mestria, veríeis,

mais do que cabides,

e do que palavras mal articuladas,

esses corações pendendo da janela.

Da frente. 

Porque, na realidade, um coração está sempre à janela, esse lugar de transgressão, violência ou desamor, tanto se dá como se recolhe. E mais não há como dizê-lo sem afirmá-lo como uma criança: 

estão corações à janela, há corações na janela da frente.