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Penitência

Diarística. Autoficção. Rompantes mais ou menos semânticos.

Penitência

Diarística. Autoficção. Rompantes mais ou menos semânticos.

Saudade

 

Tinhas uma cadeira verde -- tu, nome doloroso, a outra, de cosmos --  era de plástico pintado e começava a descascar dos excessos encostos ao muro onde vinham as lagartixas consagrar tempo ao sol. Tu, escamosa. Nem passado, nem futuro, ausência temporal, gramatical e palpavelmente. Eras a guardiã da memória e franqueavas a porta de entrada antes de os cães nos saudarem encavalitados no seu amor pela nossa mão amorosa sobre as suas cabeças, o seu lombo, a infantil barriga cerúlea. E nós todos tão encarnados. Agora, que o tempo é de chuva e tu já não te sentas, nem a porta se protege, nem os cães nos ladram inteiros, e somos todos fantasmas da tua memória ridente. Foi Páscoa e tu não estavas, as tuas malas já gastas, nem o teu crucifixo empenado,  nem Cristo ressuscitou porque não me abriste a porta. Se tu não vieres, também não lha abrirei. Agora, que  o tempo é de chuva de maio, nem o sol de junho me consola, sei que vais ofertando portas a outros que se despedem irremediavelmente. E as nossas cadeiras cada vez mais ausentes, lidando a orfandade.

A pequena voz perguntou se estava triste e eu respondi que primeiro estamos muito, depois, só de tempos a tempos. Omiti que a tristeza não cresce, nem diminui, apenas se mostra esporadicamente, na mesma proporção da primeira hora. E que não deixa de ser egoísta, que a saudade de uns é a antecipação da dos outros -- omiti também. 

 

In memoriam

t D, t C